Ciclotimia: aprenda a reconhecer os sinais do transtorno

Atualizado: Abr 2

Quais os sintomas de ciclotimia? Características? Há um teste para diagnosticar o transtorno ciclotímico? Como lidar com o distúrbio? Veja respostas neste texto.

Características da ciclotimia podem ser confundidas com traços de personalidade.
Características da ciclotimia podem ser confundidas com traços de personalidade.

Índice:


O que é ciclotimia


A ciclotimia é um distúrbio de humor que afeta cerca de 0.4% a 1% da população mundial.


A incidência do problema é equivalente entre homens e mulheres. No entanto, os homens costumam ser mais resistentes à busca de tratamento — o que pode resultar em subnotificação de casos.


Também conhecido como transtorno ciclotímico, personalidade ciclotímica ou personalidade ciclóide, a condição pode ser descrita como um tipo de bipolaridade, cujos sintomas são menos severos.


Quem sofre com o distúrbio transita entre momentos de sutil euforia e leve depressão.


Justamente por ser mais branda, a oscilação de humor tende a dificultar o diagnóstico.


Por vezes, a pessoa vive décadas sem ter sua condição devidamente identificada.


Como as evidências costumam aparecer na adolescência ou início da vida adulta, a possibilidade de a disfunção ser confundida com traços de personalidade também colabora para que a busca por tratamento seja tardio.


Embora os ciclos de humor sejam menos agressivos e duradouros que aqueles experimentados por pessoas com transtorno bipolar, isso não significa uma vida isenta de prejuízos.


Ao contrário: a falta de entendimento do temperamento instável — como indicativo de um transtorno psicológico — tende a ocasionar vários entraves ao convívio social, profissional e bem-estar geral.


Este texto irá ajudá-lo a compreender e identificar a ciclotimia.


Caso, ao final da leitura, você encontre outras dúvidas, não hesite em registrá-las nos comentários!


Características do transtorno ciclotímico

  • A principal característica da ciclotimia é a instabilidade crônica do humor.

  • É semelhante ao transtorno bipolar, mas com sintomas menos graves.

  • As frequentes flutuações de humor (ora eufórico, ora deprimido) são desproporcionais aos eventos do dia a dia.

  • O transtorno pode afetar crianças e adolescentes.

  • Geralmente, o distúrbio ciclotímico não melhora sem tratamento.

  • Pessoas com ciclotimia estão propensas a desenvolver transtorno bipolar. Estima-se que tal agravamento da condição atinja de 15 a 50% dessas pessoas.

  • Não existe uma causa única para a ciclotimia. Ou seja, segundo as pesquisas hoje disponíveis, os fatores que desencadeiam o transtorno variam de pessoa para pessoa.

  • É comum que pessoas com ciclotimia apresentem sintomas de outros problemas de saúde mental. Depressão e ansiedade, por exemplo, ocorrem em 20 a 50% dos casos. Transtornos alimentares, TDAH e comportamentos compulsivos — incluindo envolvimento em jogos de azar e compras impulsivas — também são comorbidades relacionadas ao distúrbio.

  • A personalidade ciclotímica é uma condição difícil de ser diagnosticada e requer avaliação de um psicólogo.

  • Não é raro que o temperamento ciclotímico seja interpretado como simples evidência de uma personalidade difícil — muito sensível e inconstante.

  • A ciclotimia deve ser diagnosticada a partir do histórico do paciente, pois a instabilidade precisa ser avaliada em termos de continuidade e recorrência dos sintomas típicos.

  • O tratamento padrão consiste em sessões de terapia — sendo a TCC bastante efetiva. O uso de medicamentos, como medida complementar, é recomendado apenas em situações específicas.

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Causas da ciclotimia


Como mencionamos anteriormente, os motivos que levam alguém a desenvolver o transtorno ciclotímico não são precisos.


Contudo, o componente genético é um fator bastante significativo.


Segundo o DSM-5 (manual de referência para diagnóstico de transtornos mentais, produzido pela Associação Americana de Psiquiatria), os parentes de primeiro grau de pessoas com bipolaridade têm maior probabilidade de apresentar sintomas de ciclotimia.

Além da hereditariedade, outras possíveis causas são:

  • exposição prolongada ao estresse;

  • vivência de experiências traumáticas — desastres naturais, doenças graves e abuso sexual, por exemplo;

  • fatores ambientais, como interrupções do ciclo do sono e dinâmica familiar problemática;

  • desregulação de neurotransmissores (alterações nos níveis de dopamina e serotonina são comuns em transtornos de humor do tipo bipolar).

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Diagnóstico de ciclotimia


De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o transtorno ciclotímico pode ser diagnosticado quando se verificam as seguintes condições:

  • episódios de hipomania (euforia leve) e depressão (de baixo grau) persistentes por, no mínimo, dois anos;

  • sintomas hipomaníacos e depressivos que não atendem aos critérios de bipolaridade ou depressão maior;

  • oscilações de humor presentes em mais de 50% do tempo;

  • períodos de humor estável com duração inferior a 2 meses;

  • ausência de relação entre os sintomas e o uso de medicamentos, abuso de substâncias ou condições médicas.


Ciclotimia: CID-10


No CID (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde) o distúrbio ciclotímico é identificado pelo código CID 10 - F34.0.


Para fins de diagnóstico, é descrito como:

Instabilidade persistente do humor que comporta numerosos períodos de depressão ou de leve elação nenhum deles suficientemente grave ou prolongado para responder aos critérios de um transtorno afetivo bipolar (F31.-) ou de um transtorno depressivo recorrente (F33.-). O transtorno se encontra frequentemente em familiares de pacientes que apresentam um transtorno afetivo bipolar. Algumas pessoas com ciclotimia apresentarão elas próprias anteriormente um transtorno afetivo bipolar.[*]

Nota:

Os sintomas típicos de períodos de depressão e de hipomania estão listados no próximo tópico deste texto.


Como é realizada a avaliação do distúrbio ciclotímico


O procedimento padrão, quando existe suspeita de transtorno psicológico, é descartar outras possíveis causas das oscilações de humor.


Logo, antes de qualquer sugestão de tratamento, são solicitados exames laboratoriais e de imagem.


Quando tais exames não indicam nenhuma anomalia, o próximo passo é a avaliação por parte de um profissional da saúde mental.


A partir dos relatos dos sintomas, será possível identificar — ou descartar — a ciclotimia.


Além de conversas e questionários psicológicos, outra estratégia que auxilia no diagnóstico é a manutenção de um diário, no qual o paciente registra suas sensações e comportamentos. As anotações contribuem para evidenciar a gravidade dos sintomas e sua relação de tempo.


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Sintomas da ciclotimia


Sabendo que a ciclotimia consiste em ciclos de “altos e baixos” crônicos, é necessário distinguir os sinais e sintomas das fases de depressão e de mania.


Vale lembrar que, embora semelhantes, tais indícios são mais leves que aqueles observados na depressão maior e nos transtornos bipolares.


Abaixo, você encontra listas com as características mais comuns de cada fase.


Sintomas depressivos em pessoas com transtorno ciclotímico:

Sintomas das fases da ciclotimia
Insônia é um sintoma comum do distúrbio ciclotímico.

Sintomas hipomaníacos presentes no transtorno ciclotímico:

  • otimismo e bom-humor exacerbados;

  • aumento da libido;

  • impulsividade;

  • julgamento prejudicado, resultando em comportamentos arriscados (relações sexuais imprudentes, abuso de substâncias e decisões financeiras que carecem de bom senso...);

  • agitação;

  • redução na necessidade de sono (menos de 6 horas);

  • fácil distração;

  • maior disposição para atividades físicas;

  • fala e pensamentos acelerados;

  • autoestima elevada.

Comportamentos frequentes em pessoas com personalidade ciclotímica:

  • Recorrentes rupturas de relacionamentos (reflexo da instabilidade afetiva).

  • Períodos de compulsão alimentar.

  • Compras impulsivas.

  • Farras.

  • Produtividade irregular: de picos criativos/dinâmicos a momentos de cansaço e lentidão, sem motivos aparentes.

  • Mudança/perda de emprego.

  • Problemas financeiros.

  • Abuso de álcool e drogas.


Viver nessa “gangorra” de emoções faz com que a pessoa com ciclotimia seja percebida como alguém difícil de confiar.


No trabalho, os altos e baixos logo serão atestados pela incongruência da produtividade. Do entusiasmo, o comportamento poderá passar a impressão de descaso, em pouco tempo.


A situação de inconstância também traz reflexos para os relacionamentos. As mudanças no estado de espírito, disposição e apetite sexual tendem a deixar as pessoas próximas bastante confusas.


E, sem saber que as oscilações de humor derivam de uma disfunção na saúde mental, a interpretação pode recair sobre o julgamento do caráter.

Conteúdo relacionado: Mitos e verdades sobre a bipolaridade

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Tratamento da ciclotimia


Além de afetar a vida social, profissional e romântica, a ciclotimia pode evoluir para transtorno bipolar.


Outro risco é fomentar comportamentos destrutivos, como abuso de álcool, drogas e imprudência financeira — uma vez que a impulsividade é característica da fase hipomaníaca.


Portanto, a busca por tratamento adequado deve ser priorizada.


A terapia cognitivo-comportamental (TCC) costuma ser a primeira indicação, pois permite a compreensão dos comportamentos e pensamentos nocivos, levando à mudança de padrões.


Somado ao acompanhamento terapêutico, medicamentos estabilizadores do humor, antidepressivos e antipsicóticos podem ser recomendados, de acordo com os tipos e gravidade dos sintomas.


Não existe uma cura para o transtorno ciclotímico. Mas, com a persistência no tratamento, os sintomas são amenizados.


É importante enfatizar que, sem tais cuidados, a condição não se dissipará sozinha.


Ignorar sinais de que a saúde mental necessita de atenção apenas deixará a vida mais difícil.


Quando verificamos um incômodo físico, não titubeamos em procurar opinião médica. Precisamos aprender a ter o mesmo zelo quando são as nossas emoções que avisam sobre perigos à qualidade de vida.

Caso você tenha se identificado com as características da ciclotimia que pontuamos neste texto, procure por auxílio profissional.


Se acredita que o quadro se aproxima de alguém de sua convivência, sugira a leitura deste post e ofereça apoio para seus próximos passos.

Conteúdo relacionado: Bipolaridade: o que é e como a terapia psicológica pode ajudar?

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Alterações de humor normais X ciclotimia


Quando as alterações de humor sinalizam um problema de saúde? Ou seja, quando é necessário procurar ajuda?


O psiquiatra Ricardo Moreno, um dos autores do livro Distimia: do Mau Humor ao Mal do Humor, oferece uma resposta precisa a essa questão:


As flutuações de humor fazem parte da vida, mas passam a ser um distúrbio quando os sintomas não são relacionados a eventos do cotidiano, persistem na maior parte do tempo e trazem sofrimento e prejuízo psicológico e social.[*]

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Quem pode diagnosticar o transtorno ciclotímico?


O diagnóstico da ciclotimia — assim como qualquer outro transtorno que comprometa a saúde mental — deve ser realizado por um psicólogo ou psiquiatra.


Um clínico geral pode solicitar exames laboratoriais para excluir a possibilidade de os sintomas terem causas orgânicas — desregulação da glândula tireoide, por exemplo.


No entanto, ele não possui expertise para avaliar desordens mentais.


Sendo assim, o próprio médico recomendará a busca por um especialista quando descartar problemas orgânicos que estão ao seu alcance identificar.


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Existe um teste para ciclotimia?


Não existe um teste para o transtorno ciclotímico. O diagnóstico é realizado a partir da análise do histórico das oscilações de humor e sintomas percebidos.


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Como falar com o psicólogo sobre a suspeita de sofrer com personalidade ciclotímica


É comum que pessoas que nunca fizeram terapia tenham questões sobre as primeiras sessões do tratamento.


Como conduzir a conversa, afinal?


Em primeiro lugar, saiba que o terapeuta não te deixará falando sozinho! Ele fará perguntas, que te ajudarão a expor seus incômodos.


Porém, para facilitar o início do diálogo, você pode “ensaiar” a conversa antes de chegar ao consultório.


Uma dica é escrever o que está te gerando problemas e o que você espera obter com o tratamento. Essas anotações podem ser breves, como tópicos, apenas para te ajudar a lembrar de coisas importantes.


Outra possibilidade é iniciar o contato fazendo perguntas ao psicólogo, a fim de entender melhor o método que ele utiliza. Como existem diferentes abordagens psicológicas, tais esclarecimentos são bastante pertinentes.


A conversa também pode começar com relatos do dia a dia, ou seja, exemplos de situações que te causam preocupações e desconfortos.


É normal que a primeira sessão seja um pouco “travada”. Fique tranquilo. Conforme você adquire confiança no profissional, naturalmente, você conseguirá se expressar melhor e tocar em pontos mais difíceis.

Conteúdo relacionado: Consulta com psicólogo: como é a primeira sessão de terapia?

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É possível fazer terapia online para ciclotimia?

Terapia online para ciclotimia
Pessoas com distúrbio ciclotímico podem optar por sessões de terapia online.

Sim, sessões de terapia pela internet podem ser realizadas por pacientes com transtorno ciclotímico que preferem essa modalidade de tratamento.


A psicoterapia online é regulamentada pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) e sua efetividade é comprovada por dezenas de estudos científicos.


Para mais informações sobre o modo de trabalho do psicólogo online, acesse o texto Terapia online: esclareça suas dúvidas sobre atendimento psicológico via internet


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Como funciona a TCC


Assista ao vídeo abaixo para ter uma noção de como funciona a terapia cognitivo comportamental.

Você terá outras perguntas. É normal. E muito positivo. Portanto, fique à vontade para escrever suas dúvidas nos comentários.


Ou envie as perguntas para os psicólogos da Clínica Nodari, por meio do formulário de contato.


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Remédios para ciclotimia


O uso de medicamentos para tratamento da ciclotimia não é necessário, na maioria dos casos.


Psicoeducação e terapia cognitivo comportamental (TCC) costumam ser suficientes — pois permitem que a pessoa entenda sua condição, aprenda a identificar os gatilhos das oscilações de humor e saiba utilizar estratégias de gerenciamento dos sintomas.


Porém, há situações em que psicofármacos são indicados para complementar o tratamento. Nesses casos, o psiquiatra deve avaliar quais são os medicamentos mais oportunos ao quadro específico do paciente.


Os remédios com efeitos mais promissores, segundo pesquisas, incluem:

  • Estabilizadores de humor: lítio, valproato, carbamazepina e lamotrigina.

  • Antipsicóticos: quetiapina, olanzapina, risperidona e perfenazina.

  • Ansiolíticos: benzodiazepínicos.

  • Antidepressivos tricíclicos (recomendados com muita cautela, pois o efeito de antidepressivos para quem tem transtorno ciclotímico é motivo de muita controvérsia).

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Diferença entre ciclotimia e distimia


A principal diferença entre distimia e ciclotimia é que a primeira se refere a episódios leves e crônicos de depressão. Já a personalidade ciclotímica alterna períodos depressivos e hipomaníacos, sendo mais próxima às características do transtorno bipolar.

Conteúdo relacionado: Distimia é um transtorno confundido com mau humor e personalidade difícil

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Como controlar os sintomas da ciclotimia


Quando a saúde da mente enfrenta dificuldades, a situação é idêntica àquela que acontece quando temos algum problema em outra parte do corpo.


Ou seja, você não resolve as coisas apenas com boa vontade.


Você precisa de orientação. Precisa da avaliação de um profissional — para não transformar a dor, o incômodo, em algo mais sério (e mais difícil de tratar).


Porém, assim como você escova os dentes para se prevenir da cárie, você deve cuidar da saúde do seu cérebro.


E, para ajudá-lo a manter a regularidade desejada, você pode tomar medidas preventivas básicas.


Enumeramos alguns desses cuidados:


1. Use a luz do sol a seu favor


Experimente tomar seu café da manhã junto à janela e obtenha um breve banho de sol. Estudos mostram que a exposição à luz solar beneficia o humor ao longo do dia.

2. Organize-se


Ambientes desorganizados colaboram para nos deixar irritados e sem foco.

3. Abandone o sedentarismo


Exercícios físicos liberam endorfinas e promovem sensações de bem-estar. Sugestão: comece com caminhadas de 20 minutos, duas vezes por semana.

4. Estabeleça pequenas metas para seu dia


Ações simples, que você pode realizar sem maiores transtornos, te deixarão satisfeito e animado para enfrentar outros desafios.

5. Evite bebidas alcoólicas e drogas recreativas


Tais substâncias são gatilhos para alterações de humor.

6. Cuide da higiene do sono


Procure manter a regularidade de horários e garanta o tempo de descanso adequado. Se você tiver problemas para dormir, fale sobre isso com seu psicólogo ou psiquiatra.

7. Inclua um hobby em sua rotina


Reservar momentos para o lazer te ajudarão a administrar o estresse e diminuir os sintomas depressivos.

8. Observe sua alimentação


A opção por refeições saudáveis repercute positivamente no seu estado de humor. No texto Quais os alimentos que podem ajudar no tratamento da depressão? você encontra boas sugestões para incluir em seu cardápio.


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Clínica de Psicologia Nodari

Clínica de Psicologia Especializada em Terapia Cognitivo Comportamental.

Está localizada na Vila Mariana/SP.


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