Sinto tristeza sem motivo. Por quê?



Momentos de tristeza sem motivo acometem todos nós. Na realidade, a razão existe — apenas não é óbvia.


Às vezes, são processos inconscientes que nos levam a experimentar certas emoções.


Por exemplo: você pode sentir um cheiro, que remete a um evento desagradável, ou ouvir uma música, que lembra uma pessoa com a qual teve uma discussão.


Esses estímulos podem nos afetar de uma forma cujo impacto não é percebido pelo lado racional.


É similar ao que ocorre quando estamos com fome ou sono e, de repente, nos tornamos rabugentos.


Tais sensações são passageiras e não devem causar maiores preocupações.


Outra coisa que você deve considerar é que, talvez, se sinta triste por algum episódio que ainda não superou — como uma desilusão profissional, a perda de um ente querido, a ruptura de um relacionamento…


Lógico, queremos a resiliência imediata. Seguir em frente com disposição, sem abatimentos que se arrastem. Contudo, a recuperação pode exigir um pouco mais de tempo.


Não se compare a outras pessoas, que “parecem” reconquistar a felicidade em período recorde.


Aceite que sua dor é normal. Suas feridas emocionais precisam de tempo para cicatrizar.


Porém, há situações nas quais a tristeza sem motivo se torna uma companhia constante. Ela surge “do nada”, quando tudo está bem. E se aloja no cotidiano, minando sua motivação.


É sobre esse contexto que falaremos nos tópicos a seguir.


Tristeza sem motivo: a “falta da falta”


Em palestra proferida na Universidade Federal da Bahia (UFBA), a psicanalista Maria Rita Kehl — autora do livro “O tempo e o cão: a atualidade das depressões” — propôs reflexões que nos permitem pensar sobre a tristeza por um ângulo interessante.


Ela inicia sua abordagem nos fazendo lembrar de personagens de contos de fada. Refere, em específico, a figura de reis que, apesar de terem tudo, mostravam-se sempre tristes.


Por que alguém que possui tantas riquezas, tem todas as suas necessidades prontamente atendidas, conta com acesso ilimitado ao que a vida oferece de melhor, teria um ânimo tão abatido?


A resposta que sugere — amparada por teorias desenvolvidas por Freud e Lacan — é que tais sujeitos enfrentam a “falta da falta”.


Ou seja, não dispõem de um objeto de desejo, de um impulso que os entusiasme ao movimento.


Não há um desafio, capaz de instigar o empenho, que justifique a busca por saciedade. Logo, o que lhes abate é o tédio, uma ausência de sentido para a vontade.


Kehl enxerga, na imagem desses reis, uma espécie de alegoria para o estado de depressão. “O depressivo não sofre por não obter aquilo o que deseja... o depressivo sofre porque ele não deseja nada”, afirma.


O que enxergamos como uma tristeza sem motivo seria, portanto, o sintoma da falta de um “apetite” pela vida.


Nada desperta o ânimo, porque a falta não encontra representação.


O que falta é a própria falta, o desejo que reverbera e orienta atitudes, ações e persistência.


Por isso, sim, é possível que você se sinta infeliz, mesmo que todas as condições de sua existência pareçam indicar que não há razões para tal prostração.


Como interpretar e reagir à tristeza sem motivo


Certamente, você não precisa ser um rei para vivenciar a depressão, tal como a estamos pontuando aqui.


Não se trata de ter, literalmente, tudo. Ou desfrutar de uma vida fácil, sem problemas e frustrações.


A questão é que uma tristeza profunda pode afligir pessoas que se descrevem como bem-sucedidas profissionalmente, em relacionamentos satisfatórios e com possibilidades de ter uma vida social ativa.


O ponto crucial, nesses casos, é verificar se a rotina conta com um propósito.


É preciso que as escolhas tenham conexão com objetivos íntimos e reais.


O que fazemos, carece de um porquê. Do contrário, colecionamos experiências nulas, monótonas, que não passam de um exercício de convenções.


Viajar para um lugar paradisíaco, por exemplo, não é sinônimo de felicidade. Se o planejamento do itinerário não reflete um querer genuíno, uma expectativa pessoal, todo o trânsito será vazio.


É como receber um presente caro, avaliado como um item de cobiça por muitas pessoas. No entanto, se ele não dialogar com sua individualidade, se não refletir um desejo legítimo, soará inútil e insignificante para você.


Mais do que se preocupar com a tristeza sem motivo, comece a se interrogar sobre o que julga ser a base de sua felicidade.


Esqueça respostas prontas, que se adequam ao que é valorizado cultural e socialmente.


Faça uma autoanálise corajosa e descubra se o que você está perseguindo, se os objetivos com os quais está comprometido, encontram ressonância com sua “fome”.


Talvez você esteja triste porque o “tudo” que possui não tem sintonia com suas verdadeiras aspirações. No passado, talvez, houvesse. Mas a conquista se deu, você mudou. E, agora, precisa inventar novos desejos.


A depressão acontece quando estagnamos o potencial desejante. Quando silenciamos as perguntas, por acreditar que já dispomos das respostas necessárias. Quando adquirimos a ilusão de completude (e nos falta a falta).


A solução para o fim da tristeza sem motivo, para o estado deprimido e apático, requer envolvimento e entrega a novos desafios.


A falta precisa existir, para que tenhamos motivos para levantar da cama e explorar o mundo.


Iniciar essa jornada pode ser muito mais difícil do que parece. Afinal, ela carece de um trabalho psíquico criativo, que talvez lhe pareça atrofiado. Então, busque ajuda. Converse com um psicólogo. A trajetória é sua — mas não precisa ser solitária.


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